Samba no varal


Prezado doutor Otto,

Não sei ainda como iniciar essa conversa. Sim, sei que sumi. Sim também, sei que foi sem aviso. E sim mais uma vez, sei que isso não se faz. Mas está feito, registrado e juramentado. Sumi por alguns anos penso eu. Será que foram anos? Melhor não pensar nisso.

Mas volto com a humildade de uma freira descalça em clausura clamando por sua atenção. É que aconteceram coisas, doutor Otto, muitas delas. Estou mais velha, por exemplo. Aliás, doutor, que processo é esse, o do envelhecimento? Meu cabelo tem ficado branco 7 dias depois da tinta. E meu batom, ao cobrir meus lábios, insiste também em preencher umas raízes fininhas que rodeiam minha boca. Descobri elas há algum tempo, quando tentei com um cotonete limpar o excesso de batom que estava no interior dessas raízes fininhas... Pensei então: What the fuck is this?

Estou de mudança, doutor. Depois de 11 anos morando aqui. E justamente porque vou me mudar começo a achar aqui o lugar mais perfeito do planeta... Será que todo ser humano é um pouco idiota? Há uns dois anos não penso em outra coisa a não ser sair daqui. Por todos os motivos que o senhor enumerar. Pode tentar. (distância, segurança, cachorro, gato, galinha, gambá, escorpião... por exemplo). Mas agora que a mudança está se aproximando fico na dúvida se é isso mesmo que eu devia fazer... What the fuck is this?

Estou desempregada. Mas estranhamente ligo dia sim dia não para saber o preço do euro e constantemente visito sites de busca de passagens promocionais para Europa. Hoje é uma quarta-feira, dia de sorteio da megasena. Estava eu justamente pesquisando preços de passagens para Portugal quando me lembrei que é necessário jogar para ganhar a megasena. Saí de casa apressada, de havaianas e sem batom, e fui de carro até a pequena cidade próxima de onde moro, mais ou menos uns 10 minutos. Havia uma fila imensa do lado de fora da casa lotérica. Dei meia volta e decidi ir até a cidade grande, uns 25 minutos depois. Parei em um híper mercado onde existe uma casa lotérica, um posto de gasolina (o carro estava no vermelho), chocolate, toalhas de mesa, panos de prato, vasos de bicos de papagaio maravilhosos, tender de natal, cerejas e kiwi em promoção, muçarela importada, café de marca própria com preço bom, água gasosa gelada, nozes, castanhas e dois potes de geléia de laranja. Fiz dois jogos, ao todo 7 reais. Pedi inspiração para os meus anjos (depois te conto isso, tenho comigo Miguel, Rafael, Uriel, Gabriel e Metatron) e joguei 12 números, sem pensar muito. O resultado sai logo mais. Óbvio que eu e 10 milhoes de pessoas temos o mesmo pensamento: dessa vez ganho. Mas dessa vez ganho. Acho justo pagar 7 reais por um sonho. Principamente quando se está desempregada. What the fuck is this?

Amanhã é feriado. Já é dezembro de novo e o ano é 2016. Um ano que está arranhando, não passando. What the fuck is this?

Vou tomar um banho gelado e tomar uma caipirinha de kiwi. Acho que estou de volta, doutor Otto. Vou imaginar que o senhor está muito feliz com essa notícia e que não via a hora disso acontecer. Vou imaginar que Deus ouviu suas preces. (percebe as iscas que te mando? percebe o quanto te ajudo a me entender?).

Estou sorrindo agora,

Sabrina

 

 



Escrito por Adriana às 17h50
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




IRRELEVANTE

O pensamento e as palavras. Duas entidades que caminham sempre juntas,  mas quase sempre em desacordo. Talvez amadurecer tenha a ver com reconciliações, reflexões, recomeços, reentrâncias, retórica. 

Mas também rebuliço...



Escrito por Adriana às 00h10
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Preciso testar uma descoberta. Estou no auge de uma possibilidade tecnológica. Travo uma luta com o conhecimento cibernético sozinha. Está é a terceira vez que escrevo. Perdi a batalha nas outras duas e o resultado de pelo menos uma hora de escrita vaga agora por aí... Vou publicar assim mesmo sem pé nem cabeça. 



Escrito por Adriana às 15h26
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




SUPPER'S READY

Começo assim: Sou de um tempo ("ser de um tempo" me soa estranho) que havia músicas que duravam vinte e cinco minutos, eram super elaboradas, tinham vários instrumentos tocados por músicos geniais com letras enormes e cheias de significado. Estou tentando achar uma forma de dizer o que quero. Não está fácil. Acho que minha dificuldade está exatamente no que que tornei sem perceber: Um produto do meio. Sem me dar conta me conectei e seres conectados são fast food, self service, do it yourself. Comecei esse tema quando resolvi ir, a pé, levando minha sacolinha, até à padaria perto da minha casa. Mas preciso confessar que pensei em ir de carro e não foi uma decisão tranquila optar por caminhar até lá. A pé demoraria mais e eu ficaria mais tempo "desconectada." Desconectada significa não saber, quase em tempo real, se alguém curtiu ou comentou algo que postei no facebook, se alguém está viajando, se alguém comeu um frango assado, se está fazendo pilates, se cortou o cabelo, se pintou as unhas de azul turquesa. Desconectada significa vagar por aí, sem saber, por exemplo, se está ventando em Lisboa ou se, no Pandorf, outlet nos arredores de Viena, existe uma promoção incrível de casacos de neve. Atualmente só sofre de solidão quem quer. Existe sempre, repito sempre, alguém acordado às 3.20 da manhã com uma história incrível para te distrair, te amar e te provar que não, você definitivamente não está sozinho. Pode, inclusive, contar com essa pessoa a qualquer hora do dia ou da noite, desde que você não precise contar com ela. Mas isso é só um detalhe e seres conectados não perdem tempo com detalhes. Nós, os Conectados, somos modernos. Compartilhamos, deletamos, fotogramos, postamos... Tudo na velocidade da luz. Aliás, quem é a luz diante da velocidade dos Conectados? Quando saimos para ir, digamos, a um show, mal vemos o show pois temos que fotografar tu-di-nho para depois, ou, melhor ainda, durante, compartilharmos nossa experiência, única e transcendental, com nossa legião de melhores amigos de infância, que sabem tudo a nosso respeito, nos acham lindos, nos defendem, nos alimentam e trocam nossas fraldas. Confesso que amo meu iphone. Mesmo. O meu é 4S, mas ouvi dizer que já existe o 6 (!!!!) e depois que soube disso acordo, atordoada, no meio da noite querendo um. Todos os dias, todos os dias, todos, quero adquirir um 5S. Outro dia comprei uma capinha dura que é também carregador. Minha vida praticamente mudou depois disso. Ainda não a usei, mas já a possuo, o que, por ora, me basta. Para os Conectados, possuir, saber, usufruir é quase a mesma coisa e significa pouco. Questão não importante de contexto. Com meu iphone estou, enquanto acordada, com a cabeça baixa, lendo, teclando e, com leves toques me inteirando de tudo o que é possível saber quando não se está dormindo. A conexão vicia. Acho que no futuro todo mundo vai ter torcicolo. E vai começar a usar óculos com oito anos de idade. Acho também que brevemente a tecnologia vai substituir o toque pelo sopro. O mundo ao alcance de um sopro. E as campanhas antifumo vão deitar e rolar... Imagine isso, proteger seus pulmões para que eles tenham mais capacidade para soprar a informação. 

Tudo isso começou porque me lembrei, enquanto caminhava para a padaria, (vejam que o cérebro funciona bem sem wifi), de uma música do Genesis que se chama Supper's Ready e que dura mais de vinte minutos. Pensei nela do nada e assim que cheguei em casa a achei facilmente no google. Quando eu era jovem, estar conectado era ouvir música longa e não linear, era conversar horas e horas, era esperar a comida ficar pronta. O tempo naquela época não era um desafio. Não existia uma guerra travada entre nós e o tempo, talvez porque fossemos mais inteligentes então. O tempo não mudou. O tempo não muda. Quem mudou fomos nós. Dizem que a modernidade existe para que tenhamos mais tempo. Mas, mais tempo para que? Para nos plantarmos no facebook ou qualquer outra coisa semelhante? Ou não é isso o que acontece? É só a gente parar um pouco para observar: Em qualquer local onde haja wifi, está todo mundo teclando em alguma coisa. Como se houvesse um medo generalizado de perder alguma coisa. Qualquer coisa. Parece que traz conforto saber que o amigo do amigo do primo da namorada do vizinho da colega de universidade do intercambista neozelandes que ficou seis meses na casa da tia do professor de capoeira que agora namora a prima do seu inquilino comprou uma passagem de avião para Miami pela metade do preço... 

Acho que se o tempo fosse gente ele estaria agora relaxado em uma rede nos assistindo correr a procura dele...



Escrito por Adriana às 22h17
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Doutor Otto,

 

Então é assim que funciona: eu desapareço e o senhor some. E a gente se encontra no vazio. Mas como não estou preocupada com temas furados, vamos diretamente ao que interessa. Ao que me interessa, pelo menos. O vácuo, exatamente o espaço entre uma coisa e outra coisa, a entrelinha, a entresafra, o entremeio... o entrelace de todos os entres. Enquanto lhe escrevo miro a paisagem atrás de mim através de seu reflexo em um vidro na minha frente. E o que não posso ver, imagino. Através apenas do reflexo do que vejo crio eu um mundo inteiro. Partindo do reflexo de um muro de pedras, uma torre, um pedaço de montanha, algumas árvores e um céu nublado me enxergo caminhando por ruas desconhecidas, ouvindo idiomas diferentes, provando temperos exóticos, me abrigando sob tetos de estranhos. Não tenho medo disso. Tenho medo de outras coisas. Tenho medo de mim a noite. Por isso trago sempre comigo uma lanterna, uma caneta e um caderno. E sonhos. Vários deles. Desde sempre carrego comigo sonhos, alguns envelheceram e me deixaram. Acredito que devem estar perambulando por aí, procurando quem os queira. Mas minha produção de sonhos é ininterrupta e incansável. Esse negócio de sonho se tornar realidade é meio confuso na minha cabeça. Se algum de meus sonhos se tornou realidade juro que não percebi. Minha relação com o sonhar não tem muita ligação com o realizar. Tenho um total descompromisso com o fazer acontecer. Sonho e pronto. Me satisfaz o sonhar, plenamente. Acho, inclusive, que se meus sonhos se tornarem realidade vou levar um susto danado! Porque, talvez, desejos possam se tornar realidade. Desejar é diferente de sonhar. Desejo fazer acontecer. E para que isso aconteça tenho que trabalhar. E para trabalhar tenho que parar de escrever agora. E para parar de escrever agora tenho que parar de sonhar.

O senhor ainda está aí doutor? 

Fui,

Sabrina



Escrito por Adriana às 12h28
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Quando a gente é jovem, parece que o sol é preguiçoso, custa mais a se por e depois demora um tempão pra nascer... Tem 100 anos entre um natal e outro e nas férias se tem tempo para ansiar por elas, vivê-las intensamente e depois chorar quando elas acabam. Tudo no superlativo.

Eu acho que o tempo só começa mesmo a passar quando a gente se dá conta dele...



Escrito por Adriana às 12h19
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Recomeçar é sempre interessante. Quando se está mais velho, qualquer começo é recomeço. 

Ou seja, é interessante começar na velhice...



Escrito por Adriana às 11h54
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Há coisas boas no envelhecer. O problema é que, o que não é bom, é muito ruim...



Escrito por Adriana às 11h46
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Caro doutor Otto,

Sério mesmo.

Desconfio que tem um certo tipo de eu prestes a escapar depois de anos e anos confortavelmente instalado sob camadas cuidadosamente tecidas ao longo de minha existência, fundamentadas em ponderações, considerações e elaborações. Esse certo tipo de eu geralmente se manifesta tarde da noite, quando todos os seres normais já estão há muito dormindo... Ele dá um micro sinal e me deixa alerta, pronta para a grande revelação. Mas é então que eu domino ele, doutor Otto, usando como escudo o meu pavor imenso. Quem foi que disse que eu quero saber quem é ele? E se esse certo tipo de eu for meu derradeiro eu e depois dele só a morte? Será que o gran finale é a descoberta do último eu? Só sei caro doutor, que quando esse certo tipo de eu me arranha de leve, meu medo e eu nos unimos e juntos construímos rapidamente uma forte barreira usando tijolos maciços de lógica e razão. E quem é que vence a força da lógica e da razão, principalmente de madrugada? E é assim que o certo tipo de eu se recolhe e volta cabisbaixo para seu habitat natural. Confesso que da última vez que ele se aventurou na tentativa de quebrar tal barreira tive um breve vislumbre de sua aparência. Não posso afirmar que não gostei dele. Nem que gostei. Ainda não sei o que ele significa. Se o final ou o começo. Afirmo somente que depois que ele se foi, virei para o canto e dormi profundamente. Sei que sonhei, não me lembro com o que, mas acordei muito bem, descansada e com a pele bonita. Aproveitei que estou em ótimo estado para tomar um café da manhã reforçado e para não fazer esteira. Pretendo comer bem no almoço também. E mais tarde testarei uma nova receita de palha italiana. Veja, doutor Otto, te entrego em mãos o mapa da minha mina... Depois de desvendá-lo, por favor, me envie a solução por fax. Aguardo comendo.

Grata,

Sabrina




Escrito por Adriana às 11h18
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




PRIMEIRA PESSOA

Recentemente percebi que meu choro não é mais o mesmo. Tive sempre muito intimidade com o chorar, por isso vejo suas nuances e sutilezas, com facilidade, em três dimensões. Os motivos que me trazem lágrimas aos olhos vão dos mais prosaicos aos mais óbvios. Pretendo me ater nos prosaicos. Outro dia chorei quando vi na televisão que a torta de frango da dona de casa esforçada deu certo. O que significa esse choro? Esse, que vem sem aviso e sem razão aparente? Pensei muito sobre esse assunto e conclui que significa que estou ficando velha. E para esse sinal não há botox ou batom. Ele não é como ruga, gordura localizada, flacidez, celulite ou estria. Muito menos como cabelo branco ou vista cansada. E está a léguas de distância da menopausa e da insônia. Na verdade, esse tipo de choro é libertador, na medida em que não exige grandes produções ou motivos pungentes. Ele é desavisado, deslocado e destemido. Mas é mais tímido, combina mais com córrego que com rio que sobe de repente. Acho que estou aprendendo a não esconder esse choro e isso tem me feito bem. Escrever sobre ele é a prova disso. E usá-lo como indicador de envelhecimento ao invés de me envergonhar, me liberta... Sim, estou envelhecendo, há provas materiais disso pra todo lado no meu corpo. Há uma música que diz que "os sonhos não envelhecem". Vi inclusive essa frase em um carro outro dia. Pois para minha grande surpresa e, a princípio, decepção conclui sozinha há algum tempo que sim, os sonhos envelhecem. (acho que já escrevi algo assim  um dia). O que não pode envelhecer, não mesmo, é o sonhar. Os sonhos caducam, perdem a validade... Sonhos tem que ser reinventados, não reciclados. E é nessa recriação de sonhos que talvez esteja um dos grandes baratos de envelhecer. Talvez porque nesse momento há mais chance de o sonho deixar de ser somente um sonho já que agora sonhar é coisa mais séria. De repente entra em cena o senhor Tempo e traz com ele tudo de muito bom e tudo de muito assustador também. Por isso acho bobagem jogar fora o Tempo com sonhos impossíveis... (que quando jovens achamos possíveis, como todo o resto). Por isso minha decepção quando percebi que sonhos envelhecem foi só no início. Logo depois a sensação foi de alívio. Descobri que tinha uma enorme quantidade de sonhos acumulados dentro de mim, ocupando espaço produtivo e fértil para a semeadura de novas ideias e projetos. Livre para começar de novo. Esse processo todo começou a acontecer por volta dos quarenta anos e entre tal descoberta e o alívio subsequente houve uma breve crise de identidade.  Fiquei meio perdida sem meus velhos sonhos, companheiros fiéis de anos a fio. Afinal, sempre que a situação complicava havia um deles a mão, tantos e tão versáteis eram eles... E de repente, lá estava eu, desprovida de sonhos, um ser dreamless... Mas, oh maravilha, a imaginação é infinita! E sonhar é um verbo que por si só é poesia. É transitivo, mas pode muito bem ser intransitivo também. Sonho. Ponto final. Sonhei. Ponto final. Sonharei sempre...

Antigamente eu sabia quando ia chorar e as lágrimas mais jovens eram diferentes. Eram lágrimas pirilampas. Elas saltitavam, brilhavam e jorravam. Eram mais grossas, mais mornas, mais abundantes. Acho que inclusive mais salgadas. E duravam horas. Às vezes dias. Eram recorrentes. Insistentes. E gostavam de platéia. E traziam consigo os soluços. Combinavam com quarto fechado, escuridão e falta de apetite. Ou excesso de apetite. Lágrimas mais jovens sabiam bem a que vinham e quase sempre eram bem sucedidas em sua performance. O choro jovem é mais barulhento e muito mais açucarado. É muito mais bonito também. Me lembro que quando nova gostava dos meus olhos depois do choro. Não havia rugas naquela época...

Meu choro hoje é quase sempre solitário. Por muito pouco... silencioso. É bem menos caudoloso, apesar de bastante frequente. É comum as lágrimas verterem, sem cerimonia, para o lado de dentro também. A grande diferença é que, agora, partes escondidas e acomodadas em anos de juventude, quando molhadas pelas lágrimas não mais se contentam em serem deixadas a própria sorte, correndo o risco de se mofarem ou serem tomadas por fungos. Quando irrigadas querem se secar ao sol para  então desaparecerem na forma de vapor, se dissipando nesse universo infinito (meus pedaços, quando molhados, não procuram mais por explicações, elucubrações, opiniões, meditações, elaborações...). Me incomodam, hoje, processos penosos e prolongados.

Meu labirinto inundado por lágrimas, hoje, se seca com a escrita.



Escrito por Adriana às 17h20
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




INÍCIO MEIO E NÃO FIM

 

 

Meu nome nasce em A aberto

Depois sussurra outro A, esse mais tímido

Para mais na frente se abrir em A novamente

Que não é o fim,

Posto que A não termina nada

Depois do derradeiro A

Reticências...

Ponto final é do B em diante. 

 



Escrito por Adriana às 19h35
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




doutor otto, quero escrever banalidades. no minúsculo. não quero usar regras gramaticais. só ponto final, vírgula, ponto e vírgula e dois pontos. adoro eles. acho bonito frases entre vírgulas. elas vem junto com um respiro. assim: maria, a que andava descalça, raspou a cabeça. na verdade, a que andava descalça foi uma informação acrescida. poderia-se dizer somente assim: maria raspou a cabeça. mas não, é importante saber que ela andava descalça. isso é o respiro. porque se o senhor pensar bem, ela já era careca nos pés. agora é careca na cabeça também. extremidades nuas. isso faz sentido. pra mim faz. poderia ser assim: maria que andava descalça raspou a cabeça também. mas desse jeito não tem poesia. acho que poesia é o respiro. é o que vem somado ao óbvio. é o que é dito pelo não dito. doutor otto o que será de mim sem maiúsculas? conseguirei seguir adiante sem parágrafos? não abro mão das reticências... não vivo sem elas. se tiverem que me tirar algo que seja o ponto final. as reticências não... acho que elas são poesia em si mesmas. apenas elas. ... não dá o que pensar? acho que esse é o papel delas, dar o que pensar. você lê, lê, lê e de repente depara com as reticências... aí você para e pensa. e respira. e viaja nos pensamentos. e vai ao egito. e anda pelo sahara. e sente a areia do deserto sob seu corpo. e de repente começa a acreditar em vidas passadas. é quando as reticências entram em ação, com todo seu poder de dúvida, de sonho, de continuidade... doutor otto, estou só. não me cabem grandezas hoje. nada que seja mrv, movimento retilíneo uniforme. nem cntp, condições normais de temperatura e pressão. estou só e fora do eixo, sentindo faltas... Vírgula. Dois pontos. Ponto e vírgula. Ponto final. 

sabrina



Escrito por Adriana às 19h45
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




EM RESUMO

 

Gosto de muita coisa, suporto certas coisas, não gosto de algumas coisas, sonho um tanto, acredito outro tanto, espero ainda...



Escrito por Adriana às 23h03
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




 

 

Meu caro doutor,

Apesar da enorme antipatia que ando nutrindo pela sua pessoa, acho importante que o senhor saiba que meu voto de confiança ainda é seu. Não sei bem porque, já que Indiferença poderia muito bem ser seu outro nome...

O senhor consegue me ver? Abre a janela e olha pra baixo. Estou aqui, gesticulando e gritando, sapateando e tateando, rastejando e gotejando...  Pessoas carentes pensam coisas esquisitas sobre as outras pessoas. E sobre os animais. E sobre os vegetais. E sobre os minerais. E sobre o universo. E sobre o sistema solar. E sobre a via láctea. E sobre os deuses... 

(pessoas carentes, muito carentes, se dão esse luxo). 

Dessa forma, caro doutor, se por um lapso de segundo o senhor puder voltar sua atenção para mim, o faça por favor. Pessoas carentes podem ser interessantes também. Se acudidas a tempo, podem surpreender com novas formas de amor ao próximo. 

(pessoas carentes sentem falta 

Dr. Otto, tenho tido muita fome ultimamente. Fome de doce, de salgado, de misturado. Fome de sentidos. E satisfazer tal vasta fome não tem sido fácil. É incrível como novas fomes surgem do nada ao longo do caminho... 

(pessoas carentes são imaginativas).

(nessa altura já começo a gostar novamente do senhor).

 Pessoas carentes não querem ser descobertas. Nós, carentes graduados, temos técnicas infalíveis . Sorrimos, falamos pelos cotovelos (principalmente quando não temos o que falar), choramos copiosamente em comédias românticas, comemos sem fome, bebemos sem sede, fechamos os olhos sem sono. Não dormimos. Mas viramos pro canto e não se fala mais nisso. 

O carente verdadeiro dificilmente se assume como tal porque lhe falta ar para falar de si próprio. Quem com facilidade diz "sou carente" é, na verdade, um sedutor fazendo charme... (doutor Otto doutor Otto doutor Otto...)

O senhor ainda esta aí? 

Eu não.


 

 

 



Escrito por Adriana às 09h27
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Acho que momentos de lucidez não são tão raros assim.

Dores no joelho também não. 

 

Alivio ou agonia?



Escrito por Adriana às 23h42
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]


[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]


 
Meu perfil
BRASIL, Sudeste, Mulher
Histórico
Votação
  Dê uma nota para meu blog