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MARIA VIOLA COM QUEM ESTÁ A BOLA?
Socorro, minha amiga, não me largue aqui sozinha. (E eu achando que era você que precisava de mim). Você me esqueceu no pátio, no meio da brincadeira... Não foi isso que combinamos no início, lembra? Nosso combinado era irmos juntas pela estrada afora. Agora fico eu aqui, sem saber para quem passar a bola... Inclusive, amiga minha, as regras do jogo ficaram no seu bolso. (e você sabe que sou ruim de improvisação. boa nisso é você...) Se você demorar muito vou contar pra todo mundo um segredo seu. (mentirinha viu?) Vou dar um jeito nisso amanhã de tarde. Vou te dizer amanhã que agora chega. Pode parar de me provar que o tudo se resume em quase nada. Já compreendi que quase nada é o que basta para que tudo aconteça. Não quero tudo. Tudo o que tenho, bem dobrado, me cabe. Não preciso mais. Me falta você agora, amiga querida. Por favor, agora para com isso e volta. Sei que sou lenta, mas juro que já entendi. Nós mal começamos ainda. Ainda temos Paris. E Viena. Temos filhos para criar, temos netos para ninar, temos amores para surpreender. Temos muito para envelhecer. Então, faça o favor de voltar logo. Minha paciência está se esgotando. Amanhã de tarde vou te dar uma bronca. De manhã não. De manhã vou fazer minhas coisinhas pequenas. Não quero nada que não minhas pequenas coisinhas. Ainda sacio minha fome com pão com manteiga na chapa e nescau batido no liquidificador. (nosso lanche predileto). O sol nasce todos os dias para todas as pessoas, quer elas queiram quer não. Olha só, minha querida, que coisa simples e bonita: o sol nasce todos os dias. (não tenho vergonha de dizer o óbvio. podemos tudo). Estamos vivas. Amanhã vou despertar sua energia vital em meditação. Sua energia vital vai circular por todo o seu corpo te trazendo aquilo que você precisa. Depois de amanhã vou deixar você acreditar que o sol nascerá só para você... Agora, por favor, segura a bola aí...
Escrito por Adriana às 20h07
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DIVAGAÇÕES PERMITIDAS
Vou me contar um segredo e prometo silêncio absoluto sobre ele: não mantenho promessas nem segredos! (meus ouvidos e minha mente finalmente atingiram a maioridade e se libertaram dos grilhões impostos por décadas e décadas de sangramento mensal, fertilidade uterina e obediência parental, filial, conjugal, patronal e social. Meu útero não mais existe. Doei ele à luz. Me tornei uma nova mulher: madura e sem útero. E por alguns meses vaguei oca dando a meus órgaõs do baixo ventre tempo para que se reorganizassem no novo espaço, agora mais amplo. Assim como meus ovários gostei eu também da sensação de amplitude, do refestelamento de ideias e pensamentos, agora livres da obrigação de sangrar. Não sangro mais. Minha fertilidade deixou de ter endereço certo. É andarilha, minha fertilidade. Reside agora no piscar das estrelas, na profundidade do oceano, no tilintar de brindes em taças de cristal, em entrelinhas, entremeios, entrelaces... Reside na poesia do dormir grávida e acordar madura). Mulher é fruta que não cai de madura...
Escrito por Adriana às 19h21
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Não doutor Otto, não é nada do que o senhor está pensando. Fui apenas ali e gostei de lá. E fiquei mais que o planejado. Fui caminhando de salto alto pela vida afora, me ocupando de olhar admirar pensar e acabei perdendo a hora. Foi quando tropecei e cai em mim. Mas não foi uma queda brusca já que mim estava protegida pela ação do tempo. Não vou lhe dizer que descobri coisas porque não descobri nada. E se lhe disser que estou satisfeita estarei mentindo também. Ainda tenho fome. Tenho algumas reclamações sobre o serviço proporcionado pela minha vida. Acho que há espaços muito longos entre as refeições oferecidas. Não me refiro às refeições, que fique claro. Gosto delas. Principalmente as que vem logo cedo, quando abro os olhos e as que degusto antes de dormir. Mas sou mulher grande, doutor. Tenho ossos largos e pesados, minha boca acomoda muito bem todos os dentes. Meus olhos são grandes, minhas sombrancelhas fartas. Meus cabelos são escuros, minha pele bem morena, minhas unhas fortes. Há espaço entre minhas vértebras pra muito mais... Por isso tanta fome, doutor. Tenho muita área não produtiva, acredito eu. Por isso, doutor Otto, me disfarcei de mulher ocupada, coloquei um tailleur azul marinho e um scarpin vermelho e sai vestida de executiva bem sucedida para testar o que não conheço. E gostei. Fui vestida assim ao cabelereiro, ao supermercado, ao cinema. Empertigada e atualizada, uma mulher de negócios. Por isso sumi, caro doutor. Mulheres de tailleur azul marinho e scarpin vermelho se bastam. Usam outro tipo de palavra. Suas sessões de terapia são com hora marcada e sem lágrimas pois de lá, chiquérrimas e pragmáticas, seguem para reuniões importantíssimas, onde decidirão coisas de muito valor. E quando lá chegam, em segundos se esquecem de onde vieram. Assim eu imagino. Mas, querido doutor, aqui estou eu de volta a mim mesma. Tailleur e scarpin devidamente empacotados. Back to black. E vou ser rápida porque está chovendo muito, raios e trovões aos berros no momento. Tenho certeza que a luz vai acabar e antes disso quero tomar um banho quente, colocar pijama e achar uma vela. Como eu lhe disse, doctor, não descobri nada. Acho que não passo de uma estagiária inicial... Descalça,
Sabrina
Escrito por Adriana às 19h26
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A hora é esta, Adriana: arriscar-se, atirar-se destemidamente na direção do novo. Ainda que muitas pessoas possam se apavorar e tentar lhe demover daquilo que sua alma interpreta como um novo impulso criativo, não se incomode. As pessoas falam porque estão viciadas em certezas e seguranças. Mas O Louco, arcano zero do Tarot, vem lembrar que, eventualmente, alguma loucura é mais do que bem-vinda! Ponha sua vida em movimento e lembre-se que é sempre momento de recomeçar. Evite o medo e não espere as coisas tomarem uma forma “certa” para agir. Vá!
Conselho: Momento de se atirar em novas direções, sem temor.
Escrito por Adriana às 16h02
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SILLYCONE
É com enorme estranheza que percebi um diferente tipo de solidão. Porque conheço a solidão cantada em verso e prosa, não é dessa que falo no momento. Não me refiro à solidão óbvia, que dispensa comentários. Acabo de descobrir a solidão sem poesia. Percebi que grande parte das pessoas que me rodeiam trazem em si o encanto que eu coloco nelas. Assim: carrego de cores meus amigos, turbino a vida deles, compartilho suas experiências, escrevo em seus murais, atualizo seus status, curto suas vírgulas, vibro com seus pontos de exclamação. Dr Otto, juro que não pretendia, mas sim, lhe escrevo mais uma carta. Pensei que seria capaz de me colocar sem o senhor, mas já vi que isso não será possível. Não por enquanto. Principalmente porque não o considero "sillyconado". Existimos nesse momento, eu, minha recém descoberta solidão e o senhor. Então já que assumidamente essa é uma sessão de terapia em curso vou lhe dizer como tudo começou. Foi assim: resolvi pedalar até o trabalho e no caminho comecei a ser assaltada por pensamentos do tipo "e se seu chegar lá e somente disser oi, sem dar papo pra ninguém?" E foi o que fiz. Parei minha bicicleta na garagem, coloquei o cadeado e entrei sala adentro, "oi pra todos" e tomei o rumo do meu lugarzinho. Sem qualquer comentário sobre o último filme, ou sobre o batom da Maria, ou o perfume do João, ou novos cortes de cabelo, novos modelos, novas cores, novas ideias, festas, viagens, sabores, lugares, facebook, e-mails. E todos, todos, continuaram o que estavam fazendo sem ao menos notar que eu havia entrado vestida de poucas palavras. Pela primeira vez em muito tempo. Dr Otto, a vida seguiu normal, todo mundo é normal, o mundo é normal! Então fiquei observando cada uma das pessoas na sala e percebi que todos são como são, não como eu os vejo! E ninguém, Dr Otto, ninguém precisa de mim pra viver. Ou seja, se eu entro, digo bom dia e pinto o céu de vermelho todo mundo adora, ri e participa. Agora se eu entro, digo bom dia e sigo meu caminho todo mundo continua feliz do mesmo jeito. Donde se conclui que eu turbino a realidade. E a realidade não turbinada por mim segue seu rumo como se nada tivesse acontecido. Agora minha solidão. Será que as pessoas são interessantes sem mim? E será que eu sou interessante sem elas? É duro concluir que a humanidade segue seu caminho, mesmo na minha ausência. (parei de escrever por mais ou menos duas horas. enquanto isso molhei plantas, mudei móveis de lugar, coloquei uma orquídea em cima da mesa, fiz um suco e comi um queijo quente). Voltei. E me sinto ótima, Dr Otto. Livre de mim mesma. Sou exatamente como a realidade, ora seca, ora fértil. Pretendo libertar meus amigos de mim também. Que eles usem daqui pra frente sua própria luz. Quanto a mim, bem, penso que vou escarafunchar meu passado. Pretendo percorrer vielas escuras e visitar cantos mal iluminados. Conto com o senhor nessa empreitada. Respirei fundo agora. A orquídea ficou bem ali. from the dark side of the moon, Sabrina
Escrito por Adriana às 16h08
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Dr.Otto, olho pra fora da janela e vejo a mesma paisagem de sempre, mas agora com os olhos que quero. Nao sei se isso eh bom. Os olhos que quero estao vendo coisas...
Escrito por Adriana às 16h22
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Caro doutor Otto,
Me permito dizer, humildemente, que descobri porque poucas coisas nesse mundo são tão perfeitas quanto a banana. E a descoberta veio quando me lembrei do efeito daqueles micro pedacinhos dela no meu almoço de ontem. A palavra mágica é: adocicar. Dr. Otto, pensa bem: não faz diferença uma pitadinha de um não sei o que doce, lá no finalzinho? Imagina aqui comigo: the end e luzes acesas, mas, de repente, você fecha os olhos e ainda sente aquele gostinho doce, lá no fundo... Ouso, doutor Otto, ouso dizer que todos necessitamos do doce sentir. Às vezes menos, às vezes mais, mas sempre. Meu pai costumava muito usar a palavra "amável". Ele a usava naturalmente, quando falava de alguém: "ontem conheci fulano, um sujeito engraçado e amável", por exemplo. Quando eu era pequena e ia passar o dia na casa de minhas amigas ele me dizia para ser amável com as pessoas e quando eu chegava em casa ele me perguntava se as pessoas tinham sido amáveis comigo. Não me lembro de nenhuma situação em que a resposta para essa pergunta tenha sido negativa... Há muito tempo não ouço ou uso essa palavra, pois então hoje, em vez de unir o útil ao agradável, faço questão de unir o doce ao amável... (amavelmente) Sweet Sabrina
Escrito por Adriana às 15h17
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Prezado doutor Otto,
Hoje, depois de muito tempo sem escrever, quero lhe dizer que muita coisa aconteceu em minha vida. Águas rolaram, sem dó ou piedade. Isso não significa que eu tenha sofrido. Desconfio que até para o sofrimento é preciso um certo talento, que eu, com certeza não possuo. Sei que esse é um assunto polêmico pois sofrimento tem infinitas faces. De repente você vê alguém sofrendo diante de um pé de alface, se lamentando por ter de colhe-lo depois de ter criado apego à plantinha... Fazer o que? Dar de ombros e seguir em frente, pois que cada um sabe por quem seus sinos dobram. Meu dom para o sofrimento é um pouco restrito, doutor Otto, talvez por isso eu precise tanto do senhor. (também). Sofro (pra sempre) quando quem amo parte. Choro em despedidas. Não é a esse tipo de sofrimento que me refiro. Quero aprender sobre o sofrimento verde, aquele sofrimento que ainda não enraizou. Sabe doutor Otto, aquelas mulheres chiquérrimas, que apertam os olhos e suspiram em sincero e profundo desespero quando quebram a unha? Ou pessoas bem vestidas em aeroportos, vendo seus mundos cairem diante de eventuais mudanças na ordem dos fatores? Acho que o sofrimento inspira. Acredito que grandes escritores sejam também genuínos sofredores. Ou perfeitos mentirosos. Acho que quem sofre, amadurece. E quem amadurece... não sei terminar essa frase, caro doutor. Saberia o senhor? O que acontece com quem amadurece? Está vendo só como estou doutor Otto? Sabe o que quero realmente lhe dizer agora, do fundo do coração? Que hoje, mais precisamente na hora do almoço, percebi que poucas coisas nesse mundo são tão perfeitas quanto a banana. Me servi de meia banana frita, no meio de um prato com arroz, feijão, tomate, brocolis, vagem, beterraba e frango com quiabo. Parti a banana em micro pedacinhos e acrescentei um a um a cada garfada. Logo percebi o poder da banana. E pensei: "poucas coisas nesse mundo são tão perfeitas quanto a banana". Comecei lhe escrevendo que aconteceram várias coisas em minha vida. Que águas rolaram. Pura verdade. Tiraria apenas o "sem dó ou piedade". Doutor Otto, pulei um grande pedaço de mim. Gostaria muito de lhe contar onde estive e o que vi, mas isso vai ter que esperar mais um pouco. No momento, a prioridade é da banana.
Lá da Martinica, Sabrina
Escrito por Adriana às 17h13
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VIVA O TIBET LIVRE!
Durante a rota de fuga para a Índia de duas monjas tibetanas, depois de tres anos na prisão em Lhasa sofrendo os mais diversos tipos de tortura chinesa, a mochila de uma delas cai no rio e ensopa toda sua roupa e mantimentos. A reação de sua melhor amiga e dos outros refugiados foi uma sonora gargalhada. Nesse livro que leio agora, fiquei sabendo que "esse lado despreocupado define os tibetanos, traduzindo uma profunda confiança na vida desprovida de fatalismo." Através dessa leitura, que ainda não chegou ao fim, tomo conhecimento da história recente da dominação pelos chineses de um povo pacífico e profundamente ligado aos ensinamentos budistas da não violência. Cheguei a esse livro por puro acaso, quando ele gritou por mim em uma livraria no aeroporto. (aeroportos me atiçam). Me chamou a atenção a foto em preto e branco das duas monjas na capa, tão jovens e tão sérias, tão intensas no que dizer... E eu, no lado oposto do planeta, tendo em comum com elas, a princípio, não mais que a contemporaneidade, sou agora uma tibetana de coração, irmã espiritual de Kinsom e Yandol, bradando aos quatro cantos do planeta "Viva o Tibet Livre!" (As Montanhas de Buda, Javier Moro)
Escrito por Adriana às 12h09
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Meu super caro doutor Otto,
Escrevo porque não tenho absolutamente nada pra dizer. Considero esse um bom motivo. Conseguirás me desvendar em tão poucas palavras? Dica: atrás de morro, tem morro. Deixando o dito pelo não dito, Sabrina
Escrito por Adriana às 09h20
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Doutor Otto, Assim que eu acabar de mastigar continuo a falar. Sou toda boca.
faminta, Sabrina
Escrito por Adriana às 09h12
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Doutor Otto, Estou chocada. Fui ao ginecologista ontem e ele diagnosticou depressão. Volto a fita. (acabo de apagar um sem número de palavras, onde expliquei com detalhes a fita voltada. apagadas as palavras ficarão. mantenho apenas o "volto a fita". e tenho dito). Pois bem, fato é que meu médico, diante de meu quadro de sintomas e constatações, me disse em português claro: "Sabrina, isso me parece depressão". Depressão, doutor Otto? Como assim, depressão? Ele me perguntou se eu tinha acompanhamento de algum profissional nessa área e eu disse que não. Agora tenho certeza de que lhe oferto, em bandeja de prata, um prato cheio para o final de semana. Disse que não porque, doutor Otto me salve, gostei do diagnóstico. Me senti importante estando abandonada, perdida e... deprimida! De repente o consultório se transformou em um gigantesco útero e, eu, em uma bebezinha indefesa diante daquele que me traria ao mundo. Ele assumiu um tom paternal e me disse: "vou ver o que posso fazer por você. Não se preocupe". E eu lá, cabisbaixa, chutando pedrinhas imaginárias que nem um menor abandonado. Fiquei torcendo pra querer chorar naquele momento, mas não vieram as lágrimas. A consulta durou quase duas horas. Falei sem parar. Houve momentos em que tive dúvidas se alguém com depressão fala tanto assim. Perguntei a ele se era possível estar com depressão e não saber. Ele disse que sim. Pensei então: "ah" (com um pouco de alívio, pois já estava começando a me sentir culpada. afinal, lá estava eu, recebendo dele tempo e atenção. mas, por outro lado, o que mais um ser humano quer de um profissional de saúde? comecei a gostar do diagnóstico....). Doutor Otto, sei que não lhe passei com clareza os detalhes que levaram meu ginecologista a tal conclusão. Mas estou com preguiça. Tem a ver com herpes. E com apetite voraz. E com tonteira e mal estar (não, não estou grávida, nem em pensamento, ou palavras, ou, menos ainda, obras)... Pequenas mazelas com princípio, meio e fim em si mesmas. Tanto que hoje, dia seguinte a consulta, acordei ótima, sem o menor sinal de qualquer desconforto ou coisa que o valha. Pois bem, doutor, agora cá estou, esbarrando o tempo todo nesse diagnóstico, que parece ter se tornado uma coluna extra na arquitetura da minha mente. Será que essa pessoa "deprimida" não sou eu, em nova versão? Sei lá... Eu, hein... Sabrina
Escrito por Adriana às 17h59
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Doctor, Ando um pouco abismada com minha pessoa. Recentemente descobri mais uma faceta, possivelmente algo que sempre me habitou, mas que ressurge agora, devidamente recauchutada pelo tempo... Porque, doutor Otto, começo a acreditar ser bastante normal o ressurgimento de velhas manias em nova roupagem. Como se o tempo se encarregasse, entre outros afazeres durante sua passagem impiedosa, também da transformação de velhos hábitos inadequados em novíssimas características charmosas de um ser em constante mutação... Não é muito melhor pensar assim? Pois bem, caro doutor, de uns tempos pra cá, palavras como não-comparecer, cancelar e adiar fazem parte da minha rotina com a mesma naturalidade do comer, dormir e falar. Assim: tenho um compromisso marcado com antecedência. Me preparo pra ele. Sei que ele vai acontecer. Não é ruim que ele aconteça. Na maioria das vezes é, inclusive, para meu próprio bem. No dia anterior a ele começo a questionar sobre sua importância. Amanheço quase certa de que posso, e muito bem, me virar sem ele. Então não compareço, cancelo e adio. Compromisso cancelado, Sabrina satisfeita. Esclareço aqui que não faço isso de caso pensado. Juro que acredito até perto do fim que irei, resolverei e vencerei. Não é um cancelamento devido a algum motivo. É um cancelamento e ponto final. Cancelo e pronto. Jogo pra frente e ganho tempo, não sei pra que esse tempo. E tem mais, doutor Otto. Não sinto o menor vestígio de culpa por isso, nem lá longe, no infinito. Outras questões tem ocupado minha mente, com muito mais fervor. Como a grade para o galinheiro que pretendo fazer em minha casa. Ou o viveiro sem fundo, para dar o ir e vir aos pássaros, que estou pensando seriamente em colocar no jardim. Ou ainda o ponto ideal para retirar do fogo a geléia de mexerica com casca. Doutor Otto, te digo quase em tom de segredo: confio em mim. Acredito piamente que perceberei quando o compromisso for inadiável. E lhe garanto que a esse não faltarei, mesmo que canivetes caiam do céu em abundância... Mas enquanto isso não acontece, afrouxo os cadarços, desfaço o nó da gravata (pego emprestado esse sentimento, que acredito ser exatamente o que preciso no momento), solto os cabelos (curtíssimos agora, mas conheço a sensação e sei que é com ela que quero me expressar) e me deixo conduzir pelo "leme de vento". Posso estar lhe dando um prato cheio para o final de semana, sei disso. Ou não. Sei disso também. Na verdade, bem na verdade mesmo, espreguiçar, mas espreguiçar até o final, tem me ajudado bastante. Quinze minutos no sol da manhã também. E, claro, escrever para o doutor Otto. Sendo assim, não considere essa carta uma consulta. É apenas uma constatação: pode até parecer que não, mas minha embarcação segue firme seu curso. Há pouco lhe confessei que confio em mim. Pois aqui vai outra confissão: confio também no vento. Sincerely yours, Sabrina
Escrito por Adriana às 11h33
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ERA UMA VEZ...
Hoje aconteceu uma coisa que eu não vou contar para evitar que ela se torne grande e cheia de espinhos. Enquanto ela habita somente meu pensamento tem o tamanho exato da minha neura, que, aliviada, concluo ter a mesma medida de um feijão. O que não vou contar aconteceu pela manhã. Mais detalhes vou dar: uma manhã linda, de céu azul turquesa, sol e frio de abraço. O que prova que coisas desagradáveis não acontecem somente durante noites de ventos uivantes sem lua. Aconteceu de repente e me pegou absolutamente desprevenida. No meio de uma frase com sorriso. Quando aconteceu continuei sorrindo por alguns longos segundos porque meu cérebro é lento para capturar descortesias. Ficou mais uma vez provado que sou da paz. Seres que como eu trazem em sua memória ancestral registros de vidas nômades em tribos no deserto, tem gravado em seu DNA o gen beduíno da tolerância. Sendo assim, definitivamente não vou contar o que aconteceu pela manhã. Mesmo porque não tem mais a menor importancia. No momento trago na cabeça um turbante laranja. Visto uma longa túnica branca e tenho na cintura uma faixa de pano vermelha de onde saem alguns fios de palha enfeitados com contas de vidro que refletem o sol em cores. Tenho nos pés sandálias de couro e caminho sob o sol do Sahara, carregando uma cesta cheia de tâmaras. Há em minha tenda um grande pote de alabastro cheio até em cima de água cristalina, que divido com meu povo, que divide comigo a caça quando, no fim do dia, nos sentamos em volta do fogo e alegremente dividimos nossas histórias. Poder dividir histórias traz, (para alguns), quase o mesmo alívio que um copo d'água...
Escrito por Adriana às 17h09
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Caro doutor Otto, Me esqueci completamente do senhor. Não sei o que isso quer dizer. Não sei se sou livre ou prisioneira. Livre e prisioneira me parecem sinônimos no momento. Faço sentido em contradições e contrários. Começo frases pelo ponto final. A interrogação me satisfaz como resposta. Cortei o cabelo. Duas vezes, em dois dias seguidos. Curto no primeiro dia. Mais curto ainda no segundo. Temo amanhã. Estou com labirintite. Tudo a ver. "Eu tenho tesão é no mar", não resisti, desculpe-me. Percebo que meias palavras não bastam para bons entendedores. Receio que não há bons entendedores no planeta. Talvez não mais, ainda não sei direito. Acho que estou bem. De maneira intrínseca, Sabrina
Escrito por Adriana às 21h07
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