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A MÁGICA DO BALANÇO
"Dia comum tem mágica", pensava Sandra Rosa a caminho do supermercado, segunda feira passada de manhã. Tinha que ser rápida pois depois do almoço teria que entregar nos restaurantes as especiarias que cultiva em sua "fazenda urbana", no quintal de casa. Depois que os filhos cresceram e bateram asas, Sandra Rosa se dedica ao cultivo de diversos temperos e ervas, cuidadosamente semeados em terra fértil e saudável. Sandra Rosa é uma mulher que se dá muito bem com o tempo. Com sabedoria aprendeu a respeitá-lo uma vez que perderia a luta por nocaute, caso tentasse enfrentá-lo. Assim, ela se dedica ao que gosta a sua maneira. Sandra Rosa tem uma vaidade singular, que não passa por grifes ou modismos. É uma mulher de natureza elegante, deixa por onde passa um perfume que ninguém sabe qual, mas que todo mundo adora. Tem um tom de pele bronzeado, como se tivesse chegado da praia naquele dia. Prefere as manhãs. Aprecia as noites com moderação. Há muito tempo Sandra Rosa é uma mulher feliz. Na medida certa, sem sobrar ou faltar. E o que a fez pensar que "dia comum tem mágica"? O café da manhã com Ernesto, seu marido, que lhe disse sorrindo enquanto se servia do suco preparado por ela, com a laranja e o gengibre do quintal: "nosso casamento tem balanço".
Escrito por Adriana às 20h24
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TRANSFERÊNCIA EFETUADA COM SUCESSO
Otto, Acho quase impossível que você seja indiferente a mim. Não acredito que eu tenha sido capaz de criar tudo o que sinto agora sem a sua participação. Estou assim, empolgada e cheia de coragem, porque sonhei com você um gato, de bermuda largona, camiseta branca e tênis all star na noite passada (e o anel de advogado do papai naquele dedo que aponta, da mão esquerda. Isso eu achei esquisito). Entendo que você, como profissional sério e competente que é, tenha limitações para poder demonstrar afeição ou apego por pacientes, mas não estou pedindo que você me pegue no aeroporto e me leve para jantar quando eu chegar. Ou que largue tudo e venha se esbaldar comigo na Terra do Nunca. Gostaria apenas que você atendesse minhas ligações e retornasse meus emails. Sei que não foi o que combinamos. Me lembro muito bem que concordei com meus emails semanais e com a terapia em seu consultório assim que eu chegasse de viagem. Mas estou preocupada com você. Como é que você está suportando minha ausência? Queria apenas facilitar para você, te liberando de quaisquer protocolos ou regras, e te permitindo a mim. Não precisa se sentir culpado por tudo que está acontecendo. Seu silêncio é sua resposta, e, no momento, ela me cai muito bem. Estou me sentindo aliviada agora. Tenho que parar porque estão batendo na porta. Deve ser o "room service" com o sanduiche americano, as batatas fritas, o queijo provençal e a banana split. E a Coca Cola light. Estou faminta. Mas feliz! Beijos, (muitos) Sabrina
Escrito por Adriana às 10h49
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O LAGARTINHO DO PAMPA E EU
Dr. Ottíssimo, Atingi meu auge. O Mundo se tornou Superlativo. Tudo é Demais. Todos são Muitos. Quero Tudo. Quero Todos. Dr. Otto, o que faço com tanto querer? Onde vou guardar tudo isso? (desconfio que estou no bioma errado...) Americanamente, Sabrina
Escrito por Adriana às 22h42
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LAGARTINHO DO PAMPA
Está em extinção, o lagartinho do pampa. Pequenino, fino e indefeso, esse reptilzinho se esconde debaixo de pedras, devidamente encaixado, protegido e mimetizado. Ele e os outros de sua espécie viviam felizes e despreocupados até que árvores começaram a ser plantadas em um bioma caracterizado por vegetação rasteira. As árvores, como era de se esperar, cresceram, deram galhos, folhas e a grande vilã, a sombra. O lagartinho, repentinamente privado do sol na intensidade necessária para a perpetuação dos de sua espécie, entrou em declínio de existência. Enquanto isso, na Amazonia, árvores gigantescas são cortadas para o cultivo de vegetação rasteira em forma de pasto para o gado. Fiquei confusa: não consigo entender porque inverter a ordem da natureza e interferir na lógica dos biomas. Porque destruir florestas para alimentar o gado quando, mais ao sul do mesmo país, existe uma região enorme com uma vegetação do tamanho certo para o boi? Escrevo em defesa de um animalzinho mínimo, que eu nunca vi. Mas foi o sofrimento dele diante da sombra que me alertou que também eu posso entrar em declínio de existência se me privarem do sol... 
Escrito por Adriana às 18h08
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ERA OUTRA VEZ...
Dr. Ottinho, O que está acontecendo comigo? Cheguei na Disneylandia há duas semanas e não paro de chorar. Choro por quase tudo, ontem fiquei com os olhos cheios d'água quando meu sorvete duplo, de creme crocante com cobertura de chocolate e pedaços de castanha, caiu no chão. Antes disso discuti veementemente com uma criança de no máximo oito anos que, desaforadamente, questionava a inteligência de Chapeuzinho Vermelho quando não conseguiu ver que era o Lobo Mau no lugar da querida avozinha. Quem é essa criança para ter esse tipo de inquietação? Claro que a pobre Chapeuzinho estava confusa depois de andar por tanto tempo sozinha, a tardinha, pela estrada afora... Ora, bolas. Saimos os dois, a criança e eu, aos prantos, ela de encontro aos pais que me fuzilaram com o olhar e eu, desengonçadamente, de encontro ao senhor, através desse maravilhoso invento que é o computador, a internet, o email, Freud e a psicanálise! Dr. Otto, já engordei seis quilos trezentos e cinquenta, a raiz do meu cabelo está preta e tenho uma espinha interna enorme deformando a parte esquerda do meu nariz. Não entendo o que isso quer dizer. O senhor pode me ajudar? No momento meu estômago ronca de fome, achei que já estava na hora do almoço, mas quando olhei no relógio não tem nem meia hora que comi duas panquecas e um crepe suzete de queijo com banana. Ah, e um milk shake maravilhoso de morango. O senhor já esteve aqui? Se quiser lhe passo as dicas das melhores sobremesas do planeta! Tem uma de pasta de amendoim... Está me dando vontade de chorar de novo, o senhor está vendo o que quero dizer? Eu não. Vou andar na montanha russa agora. Não sei se devo, mas tem algo de volúpia, exagero e risco nesse brinquedo que me atrai quase vorazmente no momento. Vou aproveitar que estou livre e desafiar a gravidade aos gritos! Já me sinto melhor. Depois vou retocar a cor dos meus cabelos em um salão de beleza perto da montanha russa. Estou pensando em mudar do ruivo para castanho claro, quase louro escuro, o que o senhor acha? Obrigada mais uma vez e me desculpe pela milésima vez!!! Faminta e afetadamente, Sabrina PS- Me sinto tão feliz aqui na Disney, agora que falei com o senhor!
Escrito por Adriana às 13h12
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COM AÇÚCAR, COM AFETO
Caríssimo Dr. Otto, Escrevo apenas para comunicar que o senhor e eu estamos livres de mim. Fiz escova progressiva, pintei meus cabelos de ruivo e emagreci cinco quilos, depois de duas semanas em um spa em São Paulo. Me sinto ótima. Não preciso mais de terapia. Meu inconsciente sossegou. Arrumei um trabalho temporário de intérprete na Disney World e parto em uma semana. Passarei dois meses em companhia da Minie e do Mickey, ganhando dólares e me divertindo a valer. Não se preocupe. Evitarei o trem fantasma e a Maga Patalójika. Fugirei da Madame Min e dos Irmãos Metralha. Life is great! Preciso ser breve porque tenho hora marcada na limpeza de pele. Obrigada por tudo. Faceira e alegremente, Sabrina PS- O bolo com recheio de creme de avelãs e cobertura de chocolate que o senhor já deve ter recebido foi feito por mim.
Escrito por Adriana às 15h22
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NÃO ENTENDER
Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, pode ser um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo. Clarice Lispector
Escrito por Adriana às 16h39
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COMO ESTOU DIRIGINDO?
Caro Dr. Otto, Confesso que me sinto cada vez mais confortável com sua proposta, a princípio impensável, de manter a terapia, por email, uma vez por semana. Quando quis ter alta eu realmente acreditava não ter mais o que "elaborar", que já tinha alcançado meu reino abissal e que daí prá frente nada mais poderia me surpreender. Mal sabia eu (e tudo sabia o senhor), que eu estava apenas no princípio do mergulho, devidamente amparada pelo oxigênio suplementar que o senhor, sabiamente, me aconselhou a levar. Pois bem, Dr. Otto, cá estou eu agora. O oxigênio está quase acabando e eu, na minha impetuosidade característica e na certeza de conhecer o caminho, deixei pra trás os pés de pato e os óculos de mergulho. Está frio onde me encontro agora. Coisas estranhas me tocam o tempo todo e eu não consigo me livrar delas. Estou no escuro, não sei se porque é escuro aqui embaixo ou se é porque não tenho coragem de abrir os olhos. Escrevo, como o faço agora, quando me deixo ser levada por alguma correnteza momentânea que me impulsiona para a superfície. Nessas horas inspiro resoluta, retenho o ar nos pulmões, movimento pernas e braços com vigor e fico com a impressão de estar a apenas alguns centímetros da salvação. Prezado Dr. Otto, te pergunto agora: o que dá ao senhor tanta certeza do que é melhor prá mim? Quem é que garante que vale a pena abrir a "prisão de segurança máxima" do meu inconsciente para conhecer o que mora lá? Será que não seria mais prudente me deixar distraída com minhas dores físicas e alguns anti-inflamatórios aqui e acolá? Porque, Dr. Otto, quando dói muito, uma pílulazinha e uma barra gigante de chocolate suiço, degustada lentamente na frente da televisão, me deixam nova me folha. O que ganho por me desvendar? Se eu mesma me protejo de mim, porque tanta luta? Dr. Otto, quase querido agora, me convença por favor. Me entrego, de olhos fechados ainda, à sua competencia e astúcia. A hora é essa: escolho nadar contra a corrente. O oxigênio acabou e eu, estranhamente, respiro. Acho que vou abrir os olhos. Corajosamente, Sabrina
Escrito por Adriana às 13h45
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SALVE JORGE
"O que realmente me deixa feliz é jogar meu futebol de fim de semana com os amigos. Mas tive um problema no joelho que me obrigou a parar por alguns meses. Fui ao médico, tomei remédios, fiz fisioterapia e fiquei bom de novo. Voltei a jogar, mas mes passado em um esbarrão durante o jogo torci o pé e meu joelho saiu do lugar. Agora só me resta a natação, segundo o médico o único esporte que posso praticar. Não gosto de nadar, mas venho ao clube todos os dias para ver se me acostumo e passo a gostar. Pura falta de opção, você me entende. "Mas com quantos anos você está?" "65." "Ih, você ainda não viu nada. Natação é um esporte solitário, mas depois de uma certa idade muito contato físico passa a ser perigoso. É porque vamos nos calcificando, você sabe como...." Meu nome é Jorge, tenho 64 anos e escutei sem querer essa conversa no clube, enquanto me alongava na beira da piscina para fazer meus dois mil metros diários de natação. Sou um homem ativo, ocupado, curioso, analisado e fofo, segundo minha secretária que me encaixou nesse perfil depois de ler um artigo de quatro páginas sobre "homens fofos" em uma revista feminina. Fiquei grisalho precocemente porque foi precocemente que tive meu primeiro encontro com a vida como ela é. Não fugi desse encontro e não me arrependo disso pois foi depois dele que comecei a fazer terapia e yoga. Tive alta da terapia há quatro anos, mas não da yoga. Pratico yoga todos os dias antes do amanhecer, tomo meu café da manhã, nado e só depois começo a trabalhar. Não fumo cigarros, bebo quando quero, trabalho com o que gosto e tenho uma convivência pacífica e civilizada com minha ex mulher. Não tive filhos, mas minha namorada tem duas meninas que me emocionam muito. Trabalho incansavelmente a flexibilidade do meu corpo e da minha mente pois acredito ser essa a receita para uma vida longa e saudável. Conheço o medo, o pavor, a raiva, a fúria, a tristeza e a dor. Já dei à luz muito sentimento guardado a sete chaves e algumas vezes paguei caro pela descoberta. Foi enfrentando de frente meu "dark side of the moon" que me curei de um problema de dor lombar que me acompanhava há anos. Sou a favor da vida bem vivida, descalcificada e intensa em contatos físicos. Sei que, apesar de ser a melhor escolha, não é a mais fácil pois é a que requer maior coragem e compromisso. No princípio. Com o tempo a gente percebe que o peso diminui, a caminhada se torna mais tranquila e a gente começa a compreender o real significado da palavra degustação...
Escrito por Adriana às 18h53
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O PÁSSARO E EU
ODIN ANDRADE Para ser sincero, não sou muito de bicho, de planta, de verdes matas, floridos jardins e outras manifestações da natureza. As minhas origens rurais são remotas e nasci em rua calçada, bonde a porta e estive sempre integrado à paisagem urbana sem maiores traumas e problemas de acomodação. Sou razoavelmente poluído e respiro o monóxido de carbono das cidades com naturalidade. Uma vez tive intoxicação por comer um tomate sem agrotóxico. Conforme o meu estado de espírito, acho um certo encantamento nas inversões térmicas, porque vejo nelas alguma coisa misteriosa, um toque de fim de mundo. Tenho horror a fazenda, banhos de cachoeira, casos da roça, amores em paiol e festas de arraial. Renego vigorosamente o artesanato, o folclore e não vou a festas típicas para ouvir gemer a sanfona e bailar com Rosinha. Não estou me gabando e nem pretendo ser original. Apenas falo a verdade. Quando me mudei de Belo Horizonte para morar mais ou menos no mato, o fiz por razões que nunca entendi. Não buscava o sossego, a solidão ou as vantagens de uma vida saudável. Não pretendia o silêncio para as grandes meditações e nem horizontes infinitos com montanhas ao longe. Acho que, movido pela minha inquietação, quis complicar minha vida e consegui. Vivo hoje com o pé na estrada, correndo riscos e onerando o meu orçamento. Suponho que tenho aversão ao imobilismo, à estagnação e ao acomodamento. Certamente não busco a paz. Dentro deste meu feitio é difícil entender porque estou um tanto fascinado por um passarinho que entrou pela minha casa adentro e passou a morar nela com absoluta falta de cerimônia. Obviamente um sem ninho, companheiro dos sem teto e de outras vítimas da civilização. Alguém já o identificou como um tico-tico que é, entre os pássaros, uma das espécies mais vagabundas. Um plebeu. Este meu hóspede tem a peculiaridade de não voar nunca e de andar com o passo firme, cadenciado e no rumo certo. Não canta e nem pia e se dedica, em tempo integral, a catar os ciscos e pequenos insetos. Vi quando comeu uma aranha e lambeu os beiços. Não é um pássaro bajulador que se aconchega e se deixa coçar a cabecinha. Tem personalidade e sabe exatamente o que quer. Neste ponto leva vantagem sobre mim, que até hoje não sei por onde ando. Encontrou uma residência ampla, conveniente e farta de migalhas. O que lhe basta. Não sei onde dorme a noite e quais são seus hábitos. Apenas circula por onde quer, com ar decidido de quem está disposto a enfrentar o gato. Por sorte dele a minha casa não tem gatos, mas os cachorros já estão de orelha em pé. Sentiram a presença dele e estão alertas. Estou desta forma obrigado a protege-lo e procurando não me apegar a ele, me tornando, irremediavelmente, um velho que gosta de pássaros. Se isto acontecer, o próximo passo sera inevitavelmente cuidar do jardim, regar as plantas e estender uma rede na varanda. Devo cuidar que isso não aconteça evitando que um mero tico-tico abale minha estrutura e me leve à emoções desconhecidas e terminais. Não passarei o resto dos meus dias cercado de gaiolas e comprando alpiste. Quero correr o risco de atropelamentos, enfrentar pivetes, levar esbarrões nas esquinas e pecar um pouco. Coisas que nos mantém vivos. Por isso mesmo já comecei a evitar o tico-tico e me tranco quando ele passeia pelo corredor. Estabeleceu-se entre nós um ligeiro mal estar. Não irei chegar ao extremo de dar uma bodocada nele mas, qualquer dia, com firmeza, vou lhe mostrar a porta da rua. Que vá ciscar em outra freguesia ou voar pela amplidão. Como devem fazer os pássaros.
Escrito por Adriana às 17h16
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MATURITY*
There are moments in life (more than a million, I'm afraid) when the best thing to do is to literally or literately plunge yourself into the realm of words and create generous paragraphs of grace and love where chocolate is allowed and the South West of England is just around the corner... http://www.slideshare.net/vfreire/south-west-england-1908470. *1- the quality of behaving in a sensible way like an adult. 2- the time when a person, animal or plant is fully grown or developed.
Escrito por Adriana às 13h37
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EFEITO ESTUFA
O calor me desnorteia, me desengonça, me entorna, me esparrama e me entendia. No calor coisas estranhas podem acontecer, as idéias me chegam derretidas e letras amolecidas se fundem umas nas outras criando palavras que não são minhas. Não sou responsável por mim no calor. A luz no calor me cega; me entrego de olhos fechados ao acaso em chamas e seja o que Deus quiser. No calor a nudez é mais necessária que poética. O banho também. A separação dos corpos não, essa sim, é só necessária. Parece que no calor todos os insetos gerados no frio eclodem ao mesmo tempo. No calor penso coisas do tipo: o que diferencia um ser humano do outro não é sua cor, sexo, religião ou situação geográfica no planeta, mas a forma como ele administra seu inconsciente. Porque lá no fundo, nos porões do sub-solo da mente somos todos neuróticos em potencial e carentes latentes. Me parece que lidar com esse barulho interno é tarefa mais complicada no calor. Pois não podemos contar com o fogo, com os cachecóis, com os casacos pesados ou com as meias de lã. Não podemos nos valer dos edredons, das mantas, dos caldos quentes ou dos licores de frutas exóticas. O frio justifica com maestria a aproximação milimétrica de corpos quando arde o tesão na proporção inversa a temperatura ambiente. Enquanto isso, no calor, palavras como grudento e pegajoso fazem muito mais sentido. No calor as noites são impacientes e amanhecem antes da hora. No calor podemos nos valer do gelo. Mas o gelo some em segundos. Eu também, no calor...
Escrito por Adriana às 16h35
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O LANCHE DA TARDE
Concluimos a pouco, um grande amigo e eu, em uma conversa rápida, por telefone, na hora do almoço, que lanchar pode ser a solução para aqueles que sofrem de hora do rush no peito. Em dias sombrios, quando assombrados por tamanduás e ursos, um lanche singelo de fim de tarde servido na mesa da cozinha, com toalha estampada de flores e galinhas, café com leite fumegante, pão quentinho com manteiga derretida, geléia de jaboticaba feita pela tia centenária e guardada em compoteira gorda de vidro grosso transparente, queijo de minas na tábua de madeira escura e cheiro de bolo assando no forno pode sim ser o que faltava para desbloquear o peito e ativar os hormônios do prazer. Lá fora continua o vento forte anunciando tempestade e nuvens pesadas encobrem o sol forçando-o a se retirar mais cedo. Mas nessa cozinha existem amigos ponderando sobre a toalhinha de crochet que mimosamente cobre o bule vermelho sobre o fogão de lenha. Cozinhas, em sua concepção mais genuína, devem ser lugares aconchegantes que suscitam o desabrochar de estórias censura livre, entre um gole e outro de misturas quentes, doces e cheirosas. O ritual de tirar o bolo do forno, colocá-lo em um prato único com paisagem bucólica pintada a mão por algum ancestral longínquo e saboreá-lo lentamente durante uma conversa despretensiosa e afável tem poder de cura. Anoitece e a gente só percebe que a tempestade passou quando sente o cheiro agradável de terra molhada. Lá fora a lua brilha nas folhas das árvores e na grama úmida. Cá dentro o ar finalmente acha seu caminho e passa a circular prá cima e prá baixo, livremente, deixando o peito macio e revigorado para abrigar um coração tranquilo...
Escrito por Adriana às 19h22
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TODA PRIMAVERA
Aprendi com primavera a deixar-me cortar e voltar sempre inteira. Cecília Meireles Quero apenas cinco coisas.. Primeiro é o amor sem fim A segunda é ver o outono A terceira é o grave inverno Em quarto lugar o verão A quinta coisa são teus olhos Não quero dormir sem teus olhos. Não quero ser... sem que me olhes. Abro mão da primavera para que continues me olhando. Pablo Neruda (ontem dormi inverno. acordei hoje primavera. entre os dois, sonhei...)
Escrito por Adriana às 18h44
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MONTANHA RUSSA
Ontem foi um dia como os outros, nem isso nem aquilo, apenas mais um dia normal quando todas as coisas cabem dentro de si e as gavetas se fecham sem esforço. Pois foi exatamente em um dia assim tão bem aparado que Marina conheceu o caos pela primeira vez. Tardiamente é bem verdade, afinal Marina já é mulher feita, cheia de passado. Mas o caos com suas mazelas é imprevisível e gosta de surpreender os desavisados, principalmente os felizes sem causa, como é/era o caso de nossa Marina. Lá estava ela ontem de bem com a vida, querendo bem a todos os seres vivos do planeta e pensando seriamente em se dedicar exclusivamente a trabalhos voluntários se tornando, por que não?, uma "amiga sem fronteiras", aquela pessoa que se desloca para qualquer lugar do mundo para escutar aqueles que só precisam falar para se curar. Marina passou boa parte da tarde de ontem sentada no jardim de sua casa, se imaginando em uma praça de algum país distante apenas ouvindo estórias de pessoas solitárias, em árabe, sânscrito ou japones, "não importa o idioma quando se tem olhos e mãos", pensava Marina distraidamente, imersa em boas intenções. Mas de repente Marina começou a chorar. Timidamente no começo e copiosamente do meio para o fim. "O que é isso?, pensava ela, a caminho do quarto, da cama, das cobertas. Foi quando o mundo de Marina caiu. Assim mesmo, de uma hora prá outra, Marina não sabia mais quem era ou a que veio. Seu corpo se tornou pesado como uma âncora e seus pensamentos pastosos como grude feito em casa. Aquela mulher que até há pouco se sentia preparada para ajudar o próximo jazia agora coberta até as orelhas, sem forças para dizer o próprio nome. A noite veio e escureceu ainda mais o universo de Marina. O marido chegou do trabalho sem imaginar a Marina que o receberia. Achou estranho vê-la na cama tão cedo, pensou que ela estivesse lhe preparando uma surpresa. Só notou que algo estava errado quando chegou bem próximo dela e a sentiu soluçar baixinho. Aquele homem não conhecia Marina no caos. Marina não se conhecia no caos. Suas mãos e pés estavam gelados, seus lábios trêmulos, seus olhos ardendo, os cabelos desarrumados, as roupas amarfanhadas, o nariz escorrendo... E um desentender infinito! O marido desconhecia o que fazer e tentou ajudar trazendo uma bandeja com torradas e geléia e um bule branco com cappuccino batido, quentinho e doce. "Li que é bom tomar algo quente no final do dia para acalmar a mente e lembrá-la que a hora é de desacelerar", ele lhe disse baixinho cheio de cuidados. Marina comeu e bebeu, entre um soluço e outro. Dizem que os hormonios de uma mulher em algum momento da vida criam vontade própria e arriscam saltos mortais sem rede de proteção, deixando a mulher desamparada de olhos vendados pisando em areia movediça. Marina se levantou com certa dificuldade e caminhou até o banheiro tendo um banho quente e prolongado como, talvez, a última coisa que faria nessa vida. Fechou a porta e enquanto se despia ouviu tocar o telefone no quarto. O caos, ou equisitice, ou aberração, ou desajuste emocional, financeiro, egóico, hormonal ou espiritual, ou qualquer coisa que o valha, ocupava todo o espaço deixando para Marina apenas um cantinho apertado, entre a pia e o chuveiro. Encolhida Marina esperava pelo pior. "O telefone tocar tarde da noite só pode ser tragédia", pensava Marina em profunda sintonia com o em torno. Escutou a voz do marido, "sei, sei, não, não..." Marina não conseguia ouvir com nitidez o que o marido falava, mas sabia que eram palavras soltas e curtas. "Dignas de alguém em choque", pensava. Quando o marido desligou ela, estoicamente, se desaninhou do canto onde estava encolhida e enrolada na toalha abriu uma fresta da porta. "Quem era?", suspirou em tom de pergunta, "minha mãe", respondeu o marido, entre mordidas na torrada. "O que queria ela?", conseguiu balbuciar trocando a ordem das palavras, "saber o telefone da Lia costureira", respondeu ele com o olhar fixo na televisão. "O telefone da Lia costureira" foi a senha para que as trevas dessem lugar ao sol. Como num passe de mágica Marina se recompos, alinhou a coluna, jogou a toalha longe e tomou uma chuveirada gelada, pensando na vodka Absolut de baunilha guardada no freezer... Vai entender...
Escrito por Adriana às 17h03
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