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Dr.Otto, olho pra fora da janela e vejo a mesma paisagem de sempre, mas agora com os olhos que quero. Nao sei se isso eh bom. Os olhos que quero estao vendo coisas...
Escrito por Adriana às 16h22
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Caro doutor Otto,
Me permito dizer, humildemente, que descobri porque poucas coisas nesse mundo são tão perfeitas quanto a banana. E a descoberta veio quando me lembrei do efeito daqueles micro pedacinhos dela no meu almoço de ontem. A palavra mágica é: adocicar. Dr. Otto, pensa bem: não faz diferença uma pitadinha de um não sei o que doce, lá no finalzinho? Imagina aqui comigo: the end e luzes acesas, mas, de repente, você fecha os olhos e ainda sente aquele gostinho doce, lá no fundo... Ouso, doutor Otto, ouso dizer que todos necessitamos do doce sentir. Às vezes menos, às vezes mais, mas sempre. Meu pai costumava muito usar a palavra "amável". Ele a usava naturalmente, quando falava de alguém: "ontem conheci fulano, um sujeito engraçado e amável", por exemplo. Quando eu era pequena e ia passar o dia na casa de minhas amigas ele me dizia para ser amável com as pessoas e quando eu chegava em casa ele me perguntava se as pessoas tinham sido amáveis comigo. Não me lembro de nenhuma situação em que a resposta para essa pergunta tenha sido negativa... Há muito tempo não ouço ou uso essa palavra, pois então hoje, em vez de unir o útil ao agradável, faço questão de unir o doce ao amável... (amavelmente) Sweet Sabrina
Escrito por Adriana às 15h17
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Prezado doutor Otto,
Hoje, depois de muito tempo sem escrever, quero lhe dizer que muita coisa aconteceu em minha vida. Águas rolaram, sem dó ou piedade. Isso não significa que eu tenha sofrido. Desconfio que até para o sofrimento é preciso um certo talento, que eu, com certeza não possuo. Sei que esse é um assunto polêmico pois sofrimento tem infinitas faces. De repente você vê alguém sofrendo diante de um pé de alface, se lamentando por ter de colhe-lo depois de ter criado apego à plantinha... Fazer o que? Dar de ombros e seguir em frente, pois que cada um sabe por quem seus sinos dobram. Meu dom para o sofrimento é um pouco restrito, doutor Otto, talvez por isso eu precise tanto do senhor. (também). Sofro (pra sempre) quando quem amo parte. Choro em despedidas. Não é a esse tipo de sofrimento que me refiro. Quero aprender sobre o sofrimento verde, aquele sofrimento que ainda não enraizou. Sabe doutor Otto, aquelas mulheres chiquérrimas, que apertam os olhos e suspiram em sincero e profundo desespero quando quebram a unha? Ou pessoas bem vestidas em aeroportos, vendo seus mundos cairem diante de eventuais mudanças na ordem dos fatores? Acho que o sofrimento inspira. Acredito que grandes escritores sejam também genuínos sofredores. Ou perfeitos mentirosos. Acho que quem sofre, amadurece. E quem amadurece... não sei terminar essa frase, caro doutor. Saberia o senhor? O que acontece com quem amadurece? Está vendo só como estou doutor Otto? Sabe o que quero realmente lhe dizer agora, do fundo do coração? Que hoje, mais precisamente na hora do almoço, percebi que poucas coisas nesse mundo são tão perfeitas quanto a banana. Me servi de meia banana frita, no meio de um prato com arroz, feijão, tomate, brocolis, vagem, beterraba e frango com quiabo. Parti a banana em micro pedacinhos e acrescentei um a um a cada garfada. Logo percebi o poder da banana. E pensei: "poucas coisas nesse mundo são tão perfeitas quanto a banana". Comecei lhe escrevendo que aconteceram várias coisas em minha vida. Que águas rolaram. Pura verdade. Tiraria apenas o "sem dó ou piedade". Doutor Otto, pulei um grande pedaço de mim. Gostaria muito de lhe contar onde estive e o que vi, mas isso vai ter que esperar mais um pouco. No momento, a prioridade é da banana.
Lá da Martinica, Sabrina
Escrito por Adriana às 17h13
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VIVA O TIBET LIVRE!
Durante a rota de fuga para a Índia de duas monjas tibetanas, depois de tres anos na prisão em Lhasa sofrendo os mais diversos tipos de tortura chinesa, a mochila de uma delas cai no rio e ensopa toda sua roupa e mantimentos. A reação de sua melhor amiga e dos outros refugiados foi uma sonora gargalhada. Nesse livro que leio agora, fiquei sabendo que "esse lado despreocupado define os tibetanos, traduzindo uma profunda confiança na vida desprovida de fatalismo." Através dessa leitura, que ainda não chegou ao fim, tomo conhecimento da história recente da dominação pelos chineses de um povo pacífico e profundamente ligado aos ensinamentos budistas da não violência. Cheguei a esse livro por puro acaso, quando ele gritou por mim em uma livraria no aeroporto. (aeroportos me atiçam). Me chamou a atenção a foto em preto e branco das duas monjas na capa, tão jovens e tão sérias, tão intensas no que dizer... E eu, no lado oposto do planeta, tendo em comum com elas, a princípio, não mais que a contemporaneidade, sou agora uma tibetana de coração, irmã espiritual de Kinsom e Yandol, bradando aos quatro cantos do planeta "Viva o Tibet Livre!" (As Montanhas de Buda, Javier Moro)
Escrito por Adriana às 12h09
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Meu super caro doutor Otto,
Escrevo porque não tenho absolutamente nada pra dizer. Considero esse um bom motivo. Conseguirás me desvendar em tão poucas palavras? Dica: atrás de morro, tem morro. Deixando o dito pelo não dito, Sabrina
Escrito por Adriana às 09h20
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Doutor Otto, Assim que eu acabar de mastigar continuo a falar. Sou toda boca.
faminta, Sabrina
Escrito por Adriana às 09h12
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Doutor Otto, Estou chocada. Fui ao ginecologista ontem e ele diagnosticou depressão. Volto a fita. (acabo de apagar um sem número de palavras, onde expliquei com detalhes a fita voltada. apagadas as palavras ficarão. mantenho apenas o "volto a fita". e tenho dito). Pois bem, fato é que meu médico, diante de meu quadro de sintomas e constatações, me disse em português claro: "Sabrina, isso me parece depressão". Depressão, doutor Otto? Como assim, depressão? Ele me perguntou se eu tinha acompanhamento de algum profissional nessa área e eu disse que não. Agora tenho certeza de que lhe oferto, em bandeja de prata, um prato cheio para o final de semana. Disse que não porque, doutor Otto me salve, gostei do diagnóstico. Me senti importante estando abandonada, perdida e... deprimida! De repente o consultório se transformou em um gigantesco útero e, eu, em uma bebezinha indefesa diante daquele que me traria ao mundo. Ele assumiu um tom paternal e me disse: "vou ver o que posso fazer por você. Não se preocupe". E eu lá, cabisbaixa, chutando pedrinhas imaginárias que nem um menor abandonado. Fiquei torcendo pra querer chorar naquele momento, mas não vieram as lágrimas. A consulta durou quase duas horas. Falei sem parar. Houve momentos em que tive dúvidas se alguém com depressão fala tanto assim. Perguntei a ele se era possível estar com depressão e não saber. Ele disse que sim. Pensei então: "ah" (com um pouco de alívio, pois já estava começando a me sentir culpada. afinal, lá estava eu, recebendo dele tempo e atenção. mas, por outro lado, o que mais um ser humano quer de um profissional de saúde? comecei a gostar do diagnóstico....). Doutor Otto, sei que não lhe passei com clareza os detalhes que levaram meu ginecologista a tal conclusão. Mas estou com preguiça. Tem a ver com herpes. E com apetite voraz. E com tonteira e mal estar (não, não estou grávida, nem em pensamento, ou palavras, ou, menos ainda, obras)... Pequenas mazelas com princípio, meio e fim em si mesmas. Tanto que hoje, dia seguinte a consulta, acordei ótima, sem o menor sinal de qualquer desconforto ou coisa que o valha. Pois bem, doutor, agora cá estou, esbarrando o tempo todo nesse diagnóstico, que parece ter se tornado uma coluna extra na arquitetura da minha mente. Será que essa pessoa "deprimida" não sou eu, em nova versão? Sei lá... Eu, hein... Sabrina
Escrito por Adriana às 17h59
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Doctor, Ando um pouco abismada com minha pessoa. Recentemente descobri mais uma faceta, possivelmente algo que sempre me habitou, mas que ressurge agora, devidamente recauchutada pelo tempo... Porque, doutor Otto, começo a acreditar ser bastante normal o ressurgimento de velhas manias em nova roupagem. Como se o tempo se encarregasse, entre outros afazeres durante sua passagem impiedosa, também da transformação de velhos hábitos inadequados em novíssimas características charmosas de um ser em constante mutação... Não é muito melhor pensar assim? Pois bem, caro doutor, de uns tempos pra cá, palavras como não-comparecer, cancelar e adiar fazem parte da minha rotina com a mesma naturalidade do comer, dormir e falar. Assim: tenho um compromisso marcado com antecedência. Me preparo pra ele. Sei que ele vai acontecer. Não é ruim que ele aconteça. Na maioria das vezes é, inclusive, para meu próprio bem. No dia anterior a ele começo a questionar sobre sua importância. Amanheço quase certa de que posso, e muito bem, me virar sem ele. Então não compareço, cancelo e adio. Compromisso cancelado, Sabrina satisfeita. Esclareço aqui que não faço isso de caso pensado. Juro que acredito até perto do fim que irei, resolverei e vencerei. Não é um cancelamento devido a algum motivo. É um cancelamento e ponto final. Cancelo e pronto. Jogo pra frente e ganho tempo, não sei pra que esse tempo. E tem mais, doutor Otto. Não sinto o menor vestígio de culpa por isso, nem lá longe, no infinito. Outras questões tem ocupado minha mente, com muito mais fervor. Como a grade para o galinheiro que pretendo fazer em minha casa. Ou o viveiro sem fundo, para dar o ir e vir aos pássaros, que estou pensando seriamente em colocar no jardim. Ou ainda o ponto ideal para retirar do fogo a geléia de mexerica com casca. Doutor Otto, te digo quase em tom de segredo: confio em mim. Acredito piamente que perceberei quando o compromisso for inadiável. E lhe garanto que a esse não faltarei, mesmo que canivetes caiam do céu em abundância... Mas enquanto isso não acontece, afrouxo os cadarços, desfaço o nó da gravata (pego emprestado esse sentimento, que acredito ser exatamente o que preciso no momento), solto os cabelos (curtíssimos agora, mas conheço a sensação e sei que é com ela que quero me expressar) e me deixo conduzir pelo "leme de vento". Posso estar lhe dando um prato cheio para o final de semana, sei disso. Ou não. Sei disso também. Na verdade, bem na verdade mesmo, espreguiçar, mas espreguiçar até o final, tem me ajudado bastante. Quinze minutos no sol da manhã também. E, claro, escrever para o doutor Otto. Sendo assim, não considere essa carta uma consulta. É apenas uma constatação: pode até parecer que não, mas minha embarcação segue firme seu curso. Há pouco lhe confessei que confio em mim. Pois aqui vai outra confissão: confio também no vento. Sincerely yours, Sabrina
Escrito por Adriana às 11h33
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ERA UMA VEZ...
Hoje aconteceu uma coisa que eu não vou contar para evitar que ela se torne grande e cheia de espinhos. Enquanto ela habita somente meu pensamento tem o tamanho exato da minha neura, que, aliviada, concluo ter a mesma medida de um feijão. O que não vou contar aconteceu pela manhã. Mais detalhes vou dar: uma manhã linda, de céu azul turquesa, sol e frio de abraço. O que prova que coisas desagradáveis não acontecem somente durante noites de ventos uivantes sem lua. Aconteceu de repente e me pegou absolutamente desprevenida. No meio de uma frase com sorriso. Quando aconteceu continuei sorrindo por alguns longos segundos porque meu cérebro é lento para capturar descortesias. Ficou mais uma vez provado que sou da paz. Seres que como eu trazem em sua memória ancestral registros de vidas nômades em tribos no deserto, tem gravado em seu DNA o gen beduíno da tolerância. Sendo assim, definitivamente não vou contar o que aconteceu pela manhã. Mesmo porque não tem mais a menor importancia. No momento trago na cabeça um turbante laranja. Visto uma longa túnica branca e tenho na cintura uma faixa de pano vermelha de onde saem alguns fios de palha enfeitados com contas de vidro que refletem o sol em cores. Tenho nos pés sandálias de couro e caminho sob o sol do Sahara, carregando uma cesta cheia de tâmaras. Há em minha tenda um grande pote de alabastro cheio até em cima de água cristalina, que divido com meu povo, que divide comigo a caça quando, no fim do dia, nos sentamos em volta do fogo e alegremente dividimos nossas histórias. Poder dividir histórias traz, (para alguns), quase o mesmo alívio que um copo d'água...
Escrito por Adriana às 17h09
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Caro doutor Otto, Me esqueci completamente do senhor. Não sei o que isso quer dizer. Não sei se sou livre ou prisioneira. Livre e prisioneira me parecem sinônimos no momento. Faço sentido em contradições e contrários. Começo frases pelo ponto final. A interrogação me satisfaz como resposta. Cortei o cabelo. Duas vezes, em dois dias seguidos. Curto no primeiro dia. Mais curto ainda no segundo. Temo amanhã. Estou com labirintite. Tudo a ver. "Eu tenho tesão é no mar", não resisti, desculpe-me. Percebo que meias palavras não bastam para bons entendedores. Receio que não há bons entendedores no planeta. Talvez não mais, ainda não sei direito. Acho que estou bem. De maneira intrínseca, Sabrina
Escrito por Adriana às 21h07
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TOUR LEADER ATÉ DEBAIXO D'ÁGUA
Atropeladamente tropeço em idéias e projetos para colocar em primeiro plano um mero sonho, acordado há poucas horas. Em um barco pelo rio Amazonas estava eu como tour leader de um grupo e mais várias pessoas, entre elas o Roberto Carlos, obviamente com outra cara. Havia em meu grupo uma moça super bonita, jovem, bem humorada e alto astral que se envolveu com Roberto Carlos. E ficavam os dois barco afora se divertindo a valer e a moça, feliz da vida, olhando pra todos o tempo inteiro como para se certificar que sim, aquele era o Rei e que, sim, era com ela que ele estava. De repente estou eu em meu quarto e meu querido pai, falecido há alguns anos, deitado na cama, lendo uma crônica e dando gargalhadas. Parece que alguém havia escrito algo sobre ele, o acusando de alguma coisa e ele, meu pai, ria muito do autor do texto, repetindo em voz alta o que estava escrito, as gargalhadas. Dizia: "olha só o que ele escreveu, que sujeito doido!" _ "Mas, pai, ele está dizendo (não me lembro o que) sobre você... e agora?"... (gargalhadas dele) "Isso é muito engraçado, a gente tem que rir, filha". E eu olhava pra ele, protegida novamente, (sensação jamais esquecida), quando de repente me dei conta de que ele não estava ali... mas não deixei que ele se fosse. Ele até que tentou, em algum momento reclamou desconforto e eu coloquei mais travesseiros e mudei a posição do abajour pra que ele pudesse ler melhor. E fiquei aproveitando a presença dele, super saudável, corado, rindo, gesticulando e falando alto, como sempre, outrora... Até que ouvi rumores de que algo estava acontecendo no barco. Sai do quarto e vi "Roberto Carlos" em uma mesa com a moça bonita. Quando cheguei perto deles a ouvi perguntando a ele: "o que é mais importante: o corpo ou a amizade?" E ele: "bro!". Ela ficou confusa: "bro? o que é isso?" Então me aproximei dele e sussurrei: "brotherhood?" Ele então olhou pra mim e disse" é isso aí, partnership". Não tive mais tempo então. Anunciava-se no alto falante: "as estradas na Amazonia foram fechadas e os barcos estão sendo invadidos. Vamos ter que submergir, encaminhem-se todos para seus quartos". E assim nos tornamos assustados seres submersos flutuantes, e eu nadando de peito a procura das pessoas do meu grupo, tentando, em borbolhas, acalmá-las e direcioná-las até seus quartos. No meio do caminho encontrei duas amigas, uma delas me disse: "não vou mais para a Turquia com você, mudei meus planos... e a outra: "vou para a Turquia com você, mas vou levar meus quatro cachorrinhos, um deles ainda precisa ser amamentado...." E eu: "tudo bem, qual é a raça deles?"
Escrito por Adriana às 09h44
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MULHERES "AL DENTE"
Acho difícil, considerando-se o tamanho do planeta e o número de mulheres existente nele, que ainda haja algo a ser dito sobre os ups and downs que vem com o passar dos anos.... Visto sob a lupa feminina, diga-se de passagem. Aliás, downs muito mais que ups, a bem da verdade, se considerarmos apenas a parte física do processo. Vide gravidade. ("Gravidade" provém do latim ´gravitas´, formado a partir do adjetivo ´gravis´ (pesado, importante). Ambos os vocábulos trazem a raiz ´gru-´, do antigo tronco pré-histórico indo-europeu, de onde se deriva também a voz grega ´barus´ (pesado) que, entre outros vocábulos, deu lugar a barítono (de voz grave). Em sânscrito – a milenária língua sagrada dos brâmanes – formou-se a palavra guru (grave, solene), também a partir da raiz indo-européia ´gru-´, para designar os respeitados mestres espirituais e chefes religiosos do hinduísmo). A etimologia da palavra gravidade encerra em si adjetivos como grave, importante, pesado e solene que ilustram com pompa e circunstância o trajeto, sem escalas, do nosso corpo ao longo dos anos... Digo sem escalas porque o tempo não para. Claro que podemos retardar o processo exercendo tudo aquilo que já decoramos: boa alimentação, exercícios, leitura, amigos, viagens, amores, espiritualidade, trabalho, filtro solar, chá verde, dormir bem e acordar melhor ainda. E aquilo que, outrora, apenas algumas podiam exercer: botox, silicone, plástica. E cremes. Todos. Para tudo. Tudo mesmo. Pronto: processo retardado. Não pretendo questionar escolhas. Cada uma sabe de si. Há mulheres que se sentem mais jovens quando pintam de vermelho as unhas dos pés... Acho que indiscutível é o efeito do tempo sobre o corpo e o efeito do corpo sobre a mente. Acredito que uma boa receita para o bem viver seja hidratação para o corpo e para a mente. Para o corpo, água. Para a mente, auto-estima. Ambos evitam o ressecamento. Uma mente ressecada e sem viço envelhece até os mais jovens. Uma mente hidratada e viçosa revigora até os mais velhos. Há muitas receitas para rejuvenescer o corpo, mas nem tantas para rejuvenescer a mente, eu acho. A luta para atrasar o envelhecimento do corpo toma muito tempo e acaba por manter ocupado aquele que decide encará-la. E quando ocupado não se tem tempo para perceber que o tempo passa. E lá se vão anos em clínicas e academias, esmiuçando cada nova descoberta e testando todos os produtos que trazem "juventude" escrito na bula. Só que muitas vezes a mente não acompanha a rapidez do efeito do botox, que em segundos paralisa os sinais do tempo no rosto, mas que mantém a pessoa com uma expressão imutável de perplexidade no semblante, esteja ela diante de um padre, no confessionário ou de um palhaço, no circo. (para a mente o tempo é um aliado). Assim como o botox, todas as demais promessas milagrosas vem com o prazo de validade embutido em letras minúsculas, quase que em sânscrito, em algum cantinho da bula. Sonho com prazo de validade é perigoso pois, se você não morre, acorda. Tratemos, pois, do despertar. (que petulância, meu Deus). Então mudemos para simplificar. Simplificar é uma ótima forma de recomeçar. Simplificar implica em reciclar, desapegar, doar, limpar, abrir espaço. E ousar. Eu, por exemplo, ousei começar a cozinhar. E estou descobrindo, tardiamente confesso, os prazeres do ato de cozinhar. Na verdade, ele começa bem antes do ato em si. Começa no pensamento. No despertar. Na descoberta de um outro mundo, que envolve com maestria a sensibilidade e acuidade dos cinco sentidos, de uma só vez! Não pretendo passar receitas, ingredientes ou modos de fazer. Há mestres incríveis se ocupando disso e eu os reverencio, humildemente. Cozinhar é libertador. De repente você se vê transformando paradigmas em mexido. Recentemente percebi o sentido do "al dente", quando mordi uma abobrinha e senti um gosto singular, hidratado e um aroma maravilhoso, nativo. A mesma coisa aconteceu com um micro pedacinho de gengibre que, ao ser mastigado, se tornou gosto soberano e altivo em minha boca. Alimentos "al dente" são alimentos menos modificados pelo calor e pelo tempo. São alimentos mais próximos de seu estado natural, da forma como vieram ao mundo. Preservam sua cor, consistência e fluidos e mantém seu sabor por muito mais tempo. Oferecem um pouco mais de resistência para serem quebrados, mas quando o são, encantam com a explosão de segredos até então guardados a sete chaves... Cozinhar é intuitivo. Com tempo e fogo inventa-se e reinventa-se. Talvez seja uma boa idéia nós também nos modificarmos um pouco menos e nos oferecermos "al dente" à vida ...
Escrito por Adriana às 12h32
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PRECISO É NAVEGAR
Hoje não fiz absolutamente nada do que eu tinha para fazer. Eram quatro coisas importantes. Quatro coisas que dependiam total e unicamente de mim. Duas delas levariam inclusive minha assinatura e necessitariam de comprovante de residência. As outras duas, de minha autoria, já carregavam minha assinatura, quase reconhecida. Percebo que tenho por compromissos que envolvem documentos quase a mesma aversão que tenho por números. Procuro me relacionar profissionalmente com pessoas bem resolvidas, reconhecidas por firmas, pragmáticas, magras e boas de matemática. Assim, quase sempre me dou bem. Não questiono, não desconfio e não como. Geralmente, meus parceiros profissionais obedecem rigorosamente prazos e metas e se alimentam frugalmente durante o processo de produção. Não reclamo dessa parte. Nem das outras, para ser sincera. Como sou mão de obra especializada não legalizada, documentos e tudo o que eles representam passam longe de mim. Tem sempre um parceiro mega informado que conhece tudo sobre "nossos direitos e deveres", para quem palavras como "sicaf e certidões negativas" fazem o sentido necessário para que a roda mantenha-se em movimento contínuo. Pois muito bem, por essas mudanças de vento repentinas e inexplicáveis, me vi, despreparada e ingênua, como a responsável jurídica por um trabalho recente de tradução para um órgão federal. Isso porque em um belo dia de sol amanheci questionando minha posição física no planeta: "ok, vou me aventurar pelos caminhos do labirinto jurídico da existência". Isso pensado, rapidamente, por telefone mesmo, passei a existir não só física, mas juridicamente também. Comecei a ter encargos e a pensar no futuro, igual gente grande. Nada que doesse, tudo simples e pequenininho. Só, que como disse antes, os ventos mudaram a direção e por obra e graça do destino me tornei a parceira profissional que assina. Sem o pragmatismo e o apetite frugal dos outros, é bem verdade. Sendo assim, me encontro no momento atrasada com minhas obrigações legais. Ando procurando em algum lugar de mim uma desenvoltura para procedimentos legais que desconheço na íntegra. A desenvoltura e os procedimentos legais. Semana passada fui duas vezes à prefeitura e uma vez ao banco. Depois de muito monólogo (óbvio que eu como a ouvinte, quase sempre prestando atenção no esmalte das funcionárias super prestativas) e anotações, tudo indica que estou perto de conseguir tudo para finalizar alguma coisa. Acho que semana que vem, talvez no meio dela, já esteja pronta para contactar os parceiros com a notícia: "gente, podemos enviar o trabalho, já está tudo assinado e legalizado." (e lá virá um novo eu, ensaiando os primeiros passos....). Donde concluo aliviada: viver continua impreciso.
Escrito por Adriana às 18h16
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O DENOMINADOR COMUM
Vim com um aglomerado genético curioso. Tenho em mim traços evidentes e incontestáveis do lado materno e do lado paterno. É a parte óbvia da genética. Herdei, por exemplo, o apetite do meu pai. Não herdei os dotes culinários da minha mãe. Parte injusta da genética. Engordo com alface, que nem meu pai. Mas gosto de me exercitar, como minha mãe. O que não me livra dos quilos extras, mais uma injustiça. Como meu pai, não vejo a menor lógica na mais lógica das ciências: a matemática. É como seu eu tivesse vindo com um cérebro fechado para cálculos de qualquer natureza. É uma coisa incrível: outro dia estavámos em cinco e eu nos enxergava em quatro. No restaurante o garçon falou: "o prato é para duas pessoas." E eu, mais que depressa: "ótimo, então serão dois." E as quatro pessoas olharam pra mim, sem entender meu raciocínio e eu olhei para as quatro pessoas, sem entender o raciocínio delas. Até que alguém disse: "não vai dar, somos cinco." "E daí?", pensei apenas, graças a Deus. Acho que não se deve questionar o cérebro. O meu é assim e pronto. Não vejo beleza na exatidão dos números. Mas acho belo o desenho que eles fazem, quando misturados com sinais, asteriscos, chaves e colchetes. Ficam mais bonitos ainda quando colocados em diferentes cores, uns elevados a outros, uns divididos por outros... E gosto também de alguns termos, por exemplo, dízima periódica. Ou enézima potência. Ou números primos entre si. Amava dizer: "donde se conclui que...." Nunca entendi o que era concluído, ou se algo era realmente concluído, mas dizer "donde" me fazia sentir importante e compenetrada. Tive um professor de matemática seríssimo que abotoava até o último botão da camisa, sem deixar nenhuma aberturinha sequer. Eu era atraída pelo jeito dele e prestava muita atenção no que ele falava, não no que ele ensinava. Já o vi sorrir, disfarçadamente, enquanto explicava uma equação complicadíssima e interminável voltado para o quadro negro. Tenho certeza que de todos na sala de aula, só eu o vi sorrir. (naquela manhã, há anos e anos, ele sorriu porque sabia que eu o estava observando, gosto de pensar assim). Pessoas avessas a números são assim mesmo, creio eu. Nós fazemos de tudo para escapulir do processo enfadonho que leva ao resultado certo. Claro que existe uma lógica no caminho do processo, mas não uma lógica atraente, instigante, sedutora. Nunca repeti o ano na escola. Quase sempre passava direto, sem prova final. Não por ser brilhante, longe disso aliás, mas talvez por saber fazer provas, sei lá. E por ter sorte. Me lembro de uma vez, em uma prova de matemática, que eu, em vez de resolver a questão, escrevi para o professor o porque da minha recusa em resolve-la. Na verdade eu não tinha a menor noção do que estava sendo pedido, não sabia nem por onde começar. Sendo assim, em vez de deixar a questão em branco (coisa que eu não admitia fazer, em hipótese alguma), achei por bem me justificar, dourando a pílula e desviando a atenção do professor da minha absoluta incapacidade. Não me recordo bem o que escrevi, mas sei que era algo sobre a diferença entre as pessoas, algumas numéricas, outras nem tanto, outras de jeito nenhum... Claro que eu incluída na terceira categoria. Inventei para o professor uma estória de ancestrais meus, que não dominavam as quatro operações e que nem por isso se deram mal na vida. Provei para ele que eu era bem intencionada, mas que não poderia, nem que quisesse, mudar minha genética, enraizada em minhas entranhas e que tornava meu cérebro palco para diversas cenas, menos as que envolvessem raciocínio matemático. Não me esqueci de elogiá-lo como mestre, elegante, eloquente e brilhante e que não tinha absolutamente nada a ver com minha dificuldade em aceitar a periodicidade da dízima. Não perdi média na prova nem peguei prova final naquele ano. Inaugurou-se entre o professor e eu um pacto mudo de atração mútua. Ele, pelo meu desapego à exatidão e eu pelo apego dele ao compromisso com a exatidão. Genéticas opostas se atraem...
Escrito por Adriana às 17h49
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O PENSAMENTO URBANO E O FRANGO CAIPIRA
Estou como gosto. Nada demais, tem um frango caipira quase pronto no fogão a lenha, um café quente com queijo curado em cima da mesa, dois cachorros cochilando na varanda, algumas abelhas trabalhando incansáveis em algum projeto ainda desconhecido pra mim, um sol preguiçoso brincando de esquentar o fim de tarde e eu aqui, pensando no que ouvi outro dia: "filha, mandamos pelo correio alguns presentes pra você. Quando a caixa já estava fechada seu pai chegou esbaforido, com um livrinho que ele achou que você vai adorar, assim, de última hora. Mas, espera aí filha, me deu um estalo aqui. Por um acaso, há pouco mais de um ano, seu pai não te mandou um livrinho também? Pega ele aí e leia o título, por favor. Ai, como eu desconfiava, é exatamente o mesmo livro!! De novo!! Não acredito... Não filha, esse não tem dedicatória... Por que? O outro tem? Então faça o seguinte: dê a algum amigo de presente, quando precisar. Não, nós nunca o lemos, nem você? Bom, então leia, porque deve ser bom, pelo menos continua nos atraindo, é bem verdade..." "Eta mãe e pai, isso deve ser a idade... ". Telefone no gancho. "Você viu só, será que isso é coisa da idade?", perguntei. E ouvi: "claro que não, isso é consistência de pensamento". E é nisso que penso agora: "consistência de pensamento". Quando ouvi isso achei graça e tive a certeza de que essa frase ainda voltaria à minha mente, mais cedo ou mais tarde. E voltou hoje, nem mais cedo nem mais tarde, na hora certa. Pois que pensamento melhor que esse para aguardar o cozimento de um frango caipira, igualmente consistente? Pensamento consistente deve ser aquele pensamento robusto, corado, integral, que não se desfaz com alguns míseros 493 dias. Não foi por esquecimento que o livro foi comprado de novo. Foi pela solidez do que ele representa, ou seja, comprá-lo mais uma vez só reforça a importância de seu conteúdo... Sacou? E enquanto isso a vida continua e o inverno ensaia sua saída de cena...
Escrito por Adriana às 17h01
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